Análise do Professor André Ribeiro sobre o conceito de Modernidade Líquida (Gasosa)

É possível observar, na contemporaneidade, os novos modelos de consumo influenciando e criando novas formas de relacionamento. Uma vez que você deseja um casaco, um site de compras te mostra um catálogo de modelos diferentes de casacos, no momento que você procura novos relacionamentos, aplicativos de namoro e redes sociais te apresentam diferentes perfis e indivíduos para que você se identifique, se inspire ou se aproxime. A partir do momento que aquele casaco não mais satisfaz sua utilidade, sua substituição é inevitável e simples, o mesmo vale para o indivíduo apresentado (Zigmund Bauman).

Essa leitura foi realizada por Bauman, encontra-se o conceito de Modernidade Líquida, a sociedade líquida é aquela instável e efêmera. Características como essas foram extremamente potencializadas pelo advento dos vídeos curtos, a liquidez e a efemeridade agora não mais são condicionadas apenas pela insatisfação ou ausência de necessidade daquele relacionamento ou objeto, nasce agora no comportamento social a necessidade de mudança constante, da mesma forma que os vídeos e conteúdos mudam, uma “TREND” não pode permanecer inalterada por muito tempo, é preciso atualizar-se, não fique fora de moda. Imagine um relacionamento nessa geração, se é tão fácil comprar um novo casaco, trocar o influenciador preferido, conhecer e se aproximar de uma pessoa nova, a necessidade de ter memes e referências sempre dentro das trends… O relacionamento dessa geração é marcado pela liquidez de Bauman, sob uma perspectiva ainda mais efêmera, quase como uma modernidade gasosa.

As relações humanas e interações entre indivíduos tornou-se tão rápida, que podemos considerar que os vínculos deixaram de ser frágeis, tornaram-se apenas simbólicos, os impactos das redes sociais, principalmente da inteligência artificial, fez com que os indivíduos enxerguem o outro apenas como mero produto de utilidade para satisfação de algum desejo ou vontade momentânea. O que é extremamente difícil de analisar, visto que, bombardeados a todo momento por essa situação, sua banalização torna-se inevitável pelas massas, incapazes de percebê-la devido à complexidade.

A mudança surge quase como uma necessidade e obrigatoriedade do indivíduo. Entretanto, a mesma sociedade que aumenta sua liquidez de forma desenfreada, tenta criar nova solidificação, a Cultura do Agora, cria uma nova e esquisita Cultura de longo prazo… e nem na sua cultura de longo prazo essa sociedade é capaz de permanecer sólida.

Nos últimos tempos foi possível observar diversos nascimentos de Culturas de Longo Prazo que aos poucos foram ganhando e perdendo Relevância:

  • Empreendedorismo
  • Cultura do bem-estar
  • Cultura da Academia
  • Cultura da presença digital

Todos esses 4 exemplos podem ser observados como culturas que visam a alcançar um futuro próspero, logo, é possível observar um novo nascimento sociológico contemporâneo, a mesma sociedade imediatista que só se preocupa com o agora, preocupa-se também com o futuro, muitas vezes sacrificando o próprio agora.

Concluo que existe um conflito de identidades nessa geração, assim como o Barroco viveu a dualidade RELIGIOSA X PAGÃ no século XVII, vivemos um conflito existencial que atormenta a quase todos os indivíduos inseridos na nova sociedade.

Tradução dessa ideia é vista no termo “crise dos 20”, a crise identitária dos jovens com 20 anos, que não mais é exclusiva dos jovens, mas atormenta a todos devido a esse novo momento social vivido. Da mesma forma que Hume dizia que a ideia do Eu é uma ilusão, isso é potencializado por essa nova cultura. Eu preciso ser imediatista e mudar a todo momento para estar dentro dos padrões sociais não só naquilo que diz respeito ao agora, mas preciso mudar constantemente para me enquadrar no futuro que é dito como ideal nesse agora, futuro esse que muda a todo momento.

A sociedade atual conseguiu criar um futuro do agora, que varia conforme as tendências de hoje. O futuro é mutável por natureza, o que tentam fazer é torná-lo sólido, por meio de constantes alterações líquidas, que mudam a necessidade do futuro ideal constantemente. O que é uma contradição que não faz o menor sentido.

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