Sociedade do especialista

A sociedade do especialista

Em sala de aula, ao abordar o eixo tecnologia e mídia, sempre bato na tecla da liberdade de autodeterminação online. Autodeterminação é a capacidade, o direito ou o ato de um indivíduo ou grupo decidir por si mesmo, agindo com autonomia, independência e livre-arbítrio. Ela existe ou é uma ilusão criada para domesticar seus usuários?

O conceito de liberdade virou moda nessa nova era tecnológica, todos usam e abusam do privilégio de ser livre. Entretanto, é preciso questionar essa liberdade, que se mostra cada vez mais frágil.

As redes sociais analisam milimetricamente nossos gostos, crenças, opiniões e modo de vida, a fim de entender o que gostamos, o que compramos e o que acreditamos. Segundo Schopenhauer, somos governados pela vontade e pelo desejo, a posse não nos alegra, não nos satisfaz, apenas o desejo.

Existem cientistas, pesquisadores e empresários que dedicam cada instante de suas vidas para compreender exatamente aquilo que nós desejamos. O que move você, ter ou querer ter?

Questionar a existência da liberdade digital exige um pensamento muito mais complexo do que a busca por um “sim, existe liberdade digital” “não, não existe liberdade digital” porque o questionamento real é se existe liberdade de qualquer forma. Para Kant, o homem apenas pode sair da menoridade quando passa a ser capaz de pensar por si próprio e vamos chegar lá:

Em minha concepção, vivemos na sociedade da atualização, criamos nossa opinião a partir da opinião de terceiros, vivemos a fetichização do especialista, existe especialista para tudo, métodos e regras tornaram-se a maior paixão do homem moderno, existe especialista para te dizer de qual especialista você precisa, sob o pretexto do constante avanço científico. O homem não busca mais o conhecimento, acomoda-se e busca o especialista e a atualização. No capitalismo, a atualização nunca tem fim, sempre existe alguém com o objetivo de criar um problema que você não tem e vender uma solução que você não precisa, por meio de um especialista que valida aquele produto como científico.

O imperativo categórico de Kant é fazer apenas aquilo que pode se transformar numa regra universal. E se todo mundo fizesse o que estou fazendo, o mundo seria um lugar melhor? As pessoas, incapazes de responder a essa pergunta sobre “como devemos agir?”, procuram também um especialista para ajudá-los nessa busca pela verdade do conhecimento, o nome desse especialista é geralmente “Coach” ou alguém da autoajuda. Como eu disse, para sair da menoridade, o homem precisa ser capaz de pensar por si mesmo, livre da tutela de terceiros. Como o indivíduo contemporâneo será capaz de algum dia sair da menoridade e alcançar a plena liberdade de pensamento, se não é capaz de pensar.

Para Kant e para Schopenhauer, a liberdade não é impossível, mas exige esforço e busca constantes.

Até aqui eu falei e falei, mas não respondi com clareza se existe ou não liberdade no ambiente digital… qual.seria a resposta dessa pergunta? Existe? Não existe? Até que ponto você é livre? Seus gostos, são seus ou são moldados?

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