Observar o pensamento político contemporâneo

A sociologia e a filosofia nos trazem diversas concepções e doutrinas no espectro do pensamento político.

Entretanto, acreditar friamente no ideal apresentado por meio de um estudo é uma grande problemática, e essa afirmação não tem o intuito de insinuar que a credibilidade de intelectuais deve ser questionada, o próprio conceito de acreditar deve ser questionado. Por que acreditamos?

Nas últimas décadas, por meio da globalização, o acesso a informações tornou-se extremamente democrático, mas com um grande problema por trás, o interesse comercial na disseminação dessas informações. A sociedade capitalista trouxe consigo o crescimento como o principal objetivo de sua existência, a vontade de potência, descrita por Nietzsche como inerente a todo ser vivo, deixa de ser negada pelo modo de vida ocidental e passa por uma transformação, trazida pelo neoliberalismo. Os valores se reconstroem, sendo substituídos pela busca da melhor versão individual de cada indivíduo.

A grande questão nascida com essa reconstrução é: até o filósofo, que era quem buscava a verdade e questionava a própria razão, seguia determinados princípios e se inspirava em autores e influências prévias que moldaram e transformaram profundamente seus ideais. Imagine a influência exercida sobre uma sociedade em que a filosofia e a profundidade foram completamente trocadas pelo discurso apelativo e a efemeridade. É fato que, considerar que tal geração foi composta apenas por intelectuais é um grande equívoco, porém, é fato que apenas estes possuíam influência e posicionamento político.

A história já se dividiu entre os que buscavam se manter no poder e aqueles, revolucionários em sua grande maioria, que buscavam uma transformação das estruturas de poder e o fim de sua concentração. Dentre os que buscavam sua manutenção, podemos incluir também aqueles que buscavam derrubar uma dominação para implementar sua própria, deixando o outro grupo exclusivamente para as massas, que buscavam sua emancipação.

As transformações ocorridas desde o surgimento da burguesia trouxeram complexidades tão profundas para as relações de poder que se tornou impossível dividir esses grupos em apenas dois, e é nesse contexto de complexidade que a sociedade atual está inserida.

Como problematizado no início, acreditar é algo perigoso. O que é acreditar? O ser humano já nasce com princípios que nunca escolheu, sendo eles sua nacionalidade, sua família, suas dificuldades e sua religião e serão eles que ditarão todo o seu futuro, até para os mais rebeldes, pois os que buscam a ideia, equivocada, de liberdade total das influências morais e dos valores familiares/religiosos, receberão destes a influência de buscar aquilo que mais se opõe a esses ideais. Sendo assim, o exercício da razão apresenta-se, ao menos inicialmente, como o caminho mais plausível para a emancipação intelectual.

Quando crescemos nesse mundo globalizado, apesar dos valores que recebemos ao nascer influenciarem nas crenças primárias que adquirimos, as influências posteriores também exercerão grande impacto e é aqui que mora a ideia central do conceito trazido.

Ao escolher acreditar, mesmo que no máximo esforço do exercício da razão, até que ponto conseguimos provocar as nossas próprias concepções? Como ser capaz de escolher acreditar naquilo que realmente deseja? Como saber se realmente deseja algo?

Acreditamos no que acreditamos porque fizemos o uso da razão, duvidamos e buscamos a verdade ou porque pura e simplesmente aquilo foi validado por algo ou por alguém que valida aquilo que nós mesmos já validamos? É possível compreender essa pergunta ao analisar a dificuldade de determinados grupos e bolhas sociais de aceitarem o contraditório.

Em quase todas as histórias de heróis e vilões, ambos acreditam que estão corretos e carregam determinadas convicções, a única coisa que permite ao espectador discernir entre o lado certo e o lado errado é a narrativa. Isso pode ser comprovado ao contrapor séries policiais e o seriado “La casa de papel”. Também ao observar o senador Palpatine tomar o poder da galáxia sendo aplaudido de pé.

Tentar transformar bem e mal em algo objetivo é o mesmo que tentar explicar o conceito de amor. Afirmar que algo é amor e por ser amor sempre será amor, é afirmar que aquilo que é considerado amor por um, será também para outro, mas uma pessoa sendo perseguida por um stalker discordaria disso. Alguém que sofre por um amor incorrespondido também. Dessa forma, como podemos afirmar que algo é bom por ser bom e por ser bom sempre será bom? Como podemos sequer definir o que é bom?

Vivemos hoje sob a constante busca pelo especialista, o fato de existirem pessoas que consideramos inteligentes e as usarmos para embasar nossa própria opinião não faz com que tenhamos efetivamente uma opinião própria. Apenas valida crenças e preconceitos preexistente dentro do nosso subconsciente, que, apesar de concordarmos, não podemos afirmar com certeza de que essa opinião é realmente nossa, mas sim, fruto da influência primária que antecede ao nosso nascimento.

Afirmar que acredita em algo com convicção absoluta, dentro de uma sociedade tão complexa e historicamente dominada, social e intelectualmente, é assumir o risco de perpetuar a própria dominação.

Em contrapartida, recusar-se a acreditar em qualquer coisa não constitui emancipação, mas paralisia.

A única saída é busca pela emancipação intelectual, que pode ser adquirida por meio da razão. Mas se todas as nossas crenças são influenciadas por algo anterior a nós, inclusive a nossa própria razão, como podemos ter certeza de que a razão é realmente capaz de nos emancipar? É preciso questionar o próprio ato de questionar.

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